Varandar noite adentro

Fotografia: Sónia Sultuane

Ao Mia Couto, o poeta e o escritor que me tem ensinado tanto com a sua disponibilidade humana e literária. Este texto é resultado da conversa online que tive com o Mia no encerramento da 5ª Edição da Festa do Livro da Amadora 2020. https://www.facebook.com/watch/?v=341136943965080

A vida é uma varanda.

Longe, passavam as horas

como garças com demasiado sono para voar.

In “A varanda do Antigamente”

Do livro “Tradutor das chuvas”

Mia Couto

Mia Couto

Já era tarde, mas talvez influenciados pela Deusa Atena, tornamo-nos mochos para podermos matar o sono e varandar noite adentro.     

Convidaste-me para sentar à tua beira, na tua varanda poética, e na asa da poesia. Convidaste-me para observar o mundo a acontecer lentamente, sem pressa. Ficamos sentados no chão, no primeiro degrau onde o reflexo da lua deixava-nos ver o universo a sorrir, e onde os nossos pés pudessem pisar firmemente a terra.  As nossas confidências eram memórias amassadas como o pão e impregnadas com os cheiros do tempo, que ficaram lá atrás no perfume da varanda que traz uma nostalgia dos tempos. Levaste-me a conhecer um tempo que nunca faltaste afinal, mas também nunca estiveste presente, em mim. E «esse aluno nunca faltou mas também nunca esteve presente» tal como escreveste um dia, Mia. Levaste-me a esse lugar sagrado onde os deuses iam rezar para ti. Ainda me lembro da tua voz dizendo: Aqui é onde os Deuses vem rezar, fizeste-me repensar o pensamento repensar a ti e a mim. Afinal a vida tem «fome de fronteiras» e acabei por migrar em mim mesma, ali bem juntinho a ti.

Fizeste-me ver que realmente os lugares grandes escrevem-se com três letras: avo, avô, lar, pai, mãe, lua, rio, mar, e que todo o poeta adulto é criança, estava eu, ali sentada, descalça de preconceitos, medos ou julgamentos, estava agarrada pela mão de um irmão mais velho.

Estava na varanda primeiro na penumbra da dúvida, pensando se chegaria a vislumbrar a porta do teu coração ou a janela da tua alma. Havia as paredes físicas, mas a poesia da vida rompeu esses alicerces estranguladores e delimitadores.

E fiquei numa estreita janela ou melhor, numa varanda virada para o mundo contigo, vi-te rezar, onde melhor sabes rezar, nessa poesia inventada na escrita infinita, nas palavras que tem vida e alma, nas sílabas que voam num sopro divino, oraste e pediste para remorrer, e eu também, pedi para remorrer as vezes que fossem precisas.

Aprendi que no chão frio aprendeste a aquecer o teu coração, que a cozinha cheia de saias e lenços te ensinou a amar e a cozinhar os teus sonhos com todos os aromas do mundo. Chorei de saudades do chão da cozinha da minha avó, dos cheiros perdidos no tempo, daquelas paredes onde aprendi a ver o cosmos e a ser gente. Tive saudades do chão roçado que guardava as marcas dos pezinhos da minha avó que pisaram caminhos distantes, que afinal nem tive tempo que ela me ensinasse a conhecer. Daquele chão que guardava o peso das suas mãos que ali passaram horas a alimentar a nossa existência.

Sentados na tua varanda vi nos teus olhos a doçura, e a meiguice, que afinal também guardas tão bem nos teus genes, como uma receita sagrada. Eu também queria, igual ao desejo do Poeta Fernando Couto, «que a minha vida fosse uma casa de janelas abertas aos sonhos, portas abertas aos outros».

 É nessa casa que tens as portas abertas, é nessa varanda que aprendeste a sentar-te e a conversar com os espíritos e com o mundo.

Obrigada por me teres deixado sentar-me contigo, e abrir as minhas janelas, pois a paisagem ainda mora toda em mim.

Janelas

Demoro

A fechar as janelas

Porque me doi

A vida entre dentro e fora

Meu gesto lento,

Sem antes nem depois,

Desconhece se abre ou se fecha

A janela de uma outra janela

Sem longe nem perto,

Entre sombra e além,

Na casa onde meu corpo começa

Sou em mesmo a terra que completo.

Depois do vidro,

Perdida da sua própria imagem,

a paisagem ainda mora toda em mim.

E eu, já nela.

Mia Couto

Do livro “Tradutor de chuvas” página 67

Sónia Sultuane

23 de Setembro de 2020