Códigos de Gaudí

Poemas pintados
Francisco  Noa
Escritor, ensaísta, professor de Literatura Moçambicana. 2013 

Numa passagem célebre da não menos célebre Arte Poética do escritor latino Horácio (65-8 a.C.) encontramos: “Ut pictura poesis”.

Isto é, a poesia é como a pintura e vice-versa. Como que a reforçar esta ideia, o historiador e filósofo grego, Plutarco (46-120 d. C) irá, mais tarde, defender que a pintura é poesia calada e a poesia pintura que fala. 

Eis-nos, pois, aqui perante alguém que mais do que oscilar entre estas duas artes, acaba por fazer da harmonização entre ambas a essência da sua criação. Se é verdade que ela própria tem algum pudor em assumir-se como pintora, a composição destes círculos plenos de cor e movimento que dão vida a esta sua nova instalação é reveladora de uma capacidade particular de engendrar formas, imagens e sensações que só alguém que sabe casar o pincel, a tela e a imaginação o pode fazer. 

Especialistas na matéria definiriam estas suas criações como arte abstracta. E estariam eles seguramente dentro da razão deles.

Afinal, para que realidade imediata e familiar nos remetem estas imagens? Os referidos entendidos natural e legitimamente avançariam interpretações mais coladas às técnicas utilizadas e estariam menos preocupados com eventuais representações que espíritos mais prosaicos, como os nossos, tentariam e tentam descortinar. E é aí onde penso que me assiste alguma liberdade e legitimidade para me deter sobre as impressões que este recital de cores e formas me suscitou. Afinal, toda a arte, além de ser uma floresta de sugestões ou uma casa com múltiplas janelas, é um campo imenso e ilimitado de interpretações.
 
A primeira impressão tem exactamente a ver com a opção pelas superfícies circulares onde as tintas se misturaram produzindo efeitos indeterminados. E a indeterminação, uma sensação de infinito, se quisermos, é o que, à partida, estes círculos, nos seus múltiplos tamanhos, convocam. Infinita é pois a arte, a pintura, a poesia, a vida. E é para aí que este conjunto de discos não-voadores, mas que farão seguramente a nossa imaginação voar, nos conduzem. O círculo como centro da vida, como divindade, plenitude, como profundidade e harmonia cósmica, como se a sua própria configuração e disposição nos sugerissem uma busca e uma definição do lugar dos seres e dos astros no universo. 

“Códigos de Gaudí” foi como Sónia Sultuane decidiu denominar esta sua exposição. Antoni Gaudí, um dos responsáveis por imortalizar Barcelona, em seu esplendor arquitectónico e estético, está, em pleno, presente nesta instalação que acaba por ser um merecido tributo ao maior representante do modernismo catalão. É, pois, Gaudí quem transborda no festivo, intenso e diversificado colorido, no carácter ornamental de cada quadro, nas suas formas curvas, na luminosidade das cores inventadas e reinventadas, na dimensão simbólica e poética dos elementos convocados e sobretudo no arrojado investimento nas asas de imaginação que nos levam muito além daquilo que é a nossa existência imediata, prosaica e contingente. 

Enfim, tal como a vida, a arte, por mais abstracta que ela seja, é um círculo perfeito. Neste caso, de um lirismo incontornável, tais são as dimensões de interioridade, e não só, que estes “Códigos de Gaudí” nos permitem entrever. 

Texto de abertura do catálogo da exposição Códigos de Gaudí 2013. 

As imagens são propriedade do Polana Serena Hotel e retiradas do https://www.facebook.com/CelebrandoMocambiquePsh/?tn-str=k*F
Códigos de Gaudi – Loja das Meias Maputo, Moçambique