Sonhos

Prefácio

“Poéticas”
Eduardo White – Escritor

A poesia tem uma estranha respiração humana como as mãos que aparecidas, se atravessam pelas paisagens que ela deixa a percorrer-nos dentro. Não lhe conheço formas nem padrões, de tanta que é a simplicidade – quase que explosiva e, simultaneamente, quase que recolhida – no Universo que é o seu todo. A poesia sempre feminina. Água, melodia, colheita, pedra, semente, mão, nação, bandeira, ilusão. ESCRITA. E há ou não há sempre uma mulher jazida no fundo do seu silêncio? Uma destreza dita e aguda nos lábios que dela espreitam?

Então repare-se. Um poema medeia a beleza e a visão da palavra que a redige. É como referir um pássaro no volume da sua asa, ou figurar a metáfora no corpo arável da música que ele canta. Por isso, antes de se fazer sentir, a poesia tem que ser sentida e doida, tocada e investigada e só depois amada, e só depois libertada. Mas que ninguém se preocupe com as perfeições canónicas na poesia, que ela é avessa a essa patética poética. A poesia como o corpo simples do fruto é do fermento. Engrandece-se com a cozedura do tempo. Não saberá disto, por certo, a desimaginosa mente transfiguradora do poeta que agora não faz versos ou se faz se cansou de fazê-los, ou se os fez se esforçou, em vão, por sê-los. Então, Sónia, não te amedrontes com o facto da poesia não se vender, nem te espantes. Porque a poesia, do mesmo modo que não vende, do mesmo modo não se vende poesia e, antes de mais, viver-se com autenticidade, pois só o autêntico tem e é poesia. “Quem pode compreender a simplicidade do simples?”, perguntaria o meu querido amigo Antonio Ramos Rosa. Maiúsculas são todas as coisas simples, lembrar-te-ia eu.

Chega-me à mão um livro de poesia escrito pela própria poesia. Nunca se escreve o que se é. Penso. E depois detenho-me sobre ele. Leio-lhe os sentidos da forma como se dói. Não se impõe este livro, com certeza, nem tu o ambicionas, como o livro da tua vida, mas ele está, indubitavelmente, cheio de vida. Cheio de ti, do que amaste e choraste, do que riste e acreditaste, de todas aquelas coisas pelas quais ousaste não morrer. Estão aqui. Humilde e cruamente expostas. Sem que omitisses dor nenhuma. Um canto de amor e de desamor, atento aos sinais que foram e à humana paixão com que secreta e lírica, ainda hoje os adivinhas. Os beijos, os arrepios, as peles, os lábios, os dedos, os sexos, os sémenes.

Aí, sim é belo ver-te tu, autêntica. Tu poesia num país onde a poesia se masculinizou. E tu, também, frágil como os teus versos, como o lugar donde se deslumbram as canções maduras que adubas para sonhares, amanhã, com o que o poema sonhas sempre. Que bom seres bonita para falares de tudo isto, muito embora nem tudo em ti esteja ainda pronto. Configura-se porém. Nenhuma forma é definitiva. Não te ponham, portanto, a descortinar o indescortinável. Nem te esforces, não muscules o que nunca vais dar como respostas.

Chamo, para terminar, a memória. Grito: Memória vem cá. E ela chega e faz-me lembrar-te trémula perguntando- me: “Será oportuno?”. Se é oportuno e se é comerciável ou não, que tais factos te não perturbem, embora aos outros, aos realmente perturbados, perturbes, porque sendo tu poesia, e de dois úteros, isso demonstra-nos, com realidade, o chão esplendoroso do poeta que estás a descobrir em ti.

Prefácio à obra Sonhos 2001.

Posfácio

“Amor e viver sempre na imaginação”
Ana Mafalda Leite – Escritora

Tem a poesia esse dom de fingir todas as verdades, todas as emoções, de se querer do sonho a presença, a totalidade e perfeição. Nestes poemas de Sónia Sultuane, um a um escritos como quem sente devagar um sonho demorado entre a consciência da ilusão e o desejo de a viver, a poeta percorre o espaço que vai de si própria para uma outra em que se procura e desafia, “como queria ser a outra dos meus sonhos” (p.47), feminino sujeito que se quer intenso e pleno no seu sensitivo imaginário, por entre as pausas de um cadenciado ritmo de escrita.

Escrevendo como quem reflecte ou inflecte no interior exterior do que é sentir e ser sentido: “o leve deste papel onde agora te sinto/sem o peso que isso” (p.29), não confessa, não exprime. Conta, como quem sussurra, esses lugares da emoção que se tomam irisados de muitas cores, ora mais esbatidas, ora mais fortes e vivas.

Um percurso que corporiza gradualmente os sentimentos e sensualmente os convoca em todas as suas contradições. Desejo, ausência, saudade, ilusão, sonho, distância, alegria, dor. Imaginando, através das palavras, as formas que tem os sentimentos, de tanto os sentir. Imaginando o amor, vivendo-o nessas imagens que ele encontra nos muitos espelhos da alma: “Amar-te é algo sem dimensão ou justificação/é viver sempre na imaginação/…/estar sempre a sonhar” (p.28).

No seu mundo amoroso re-imaginado e recriado, a poeta tenta regressar envolvência da infância e candura excessiva de ser, “deixem-me no meu mundo doce e infantil, mas meu” (p.73), experimentando-se ludicamente, ao brincar com o seu pensamento da emoção, refazendo-a pela distância, inventando-o, sem mágoa, com a alquimia já criativa da palavra: “vou brincando com o meu pensamento,/tentando encontrar-me distante, /mas presente,/no que és presente, quando és ausente” (p.38).

Toma-se o amador na coisa amada a custa de tanto imaginar, e a beleza procurada está em si, nessa invenção sensorial que se filtra e ilumina entre ser e escrever, revelando-se devagar. Procura dos versos e anversos que a levam a querer achar em si outras imagens de ser, em que tal desejo se imagina e fulgura, fonte misteriosa que desprende a emoção, em fogos de artifício. Neste “sonho desperto” (p.38) e vontade de volver a uma imagem múltipla, em que narcisicamente se reinventa, tal como ao amor e seus imaginados e imaginários sentidos, se descobre a aprendiz de poesia em palavra, a desejar ser totalidade, plenitude, corpo a corpo, sonho desperto em poema: “como queria ser a outra dos meus sonhos, alegre, misteriosamente bela,/e que não vagueia lentamente e triste,/mas que vive,/e a beleza que arde tão dentro, como queria ser a outra, a dos meus sonhos mais viva ternamente” (p.47).

Posfácio à obra Sonhos 2001.