Roda das Encarnações

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Roda das Encarnações
Francisco Noa – Escritor, ensaísta, professor de literatura moçambicana.

E é logo o título que nos prepara não para uma ruptura, ou inversão, mas para uma espécie de aliança estruturante entre o pendor sensorial e o apelo místico. A roda das encarnações convoca necessariamente as doutrinas sobre a transmigração da alma ao longo de tempos imemoriais, de vidas anteriores, de emoções não resolvidas nessas mesmas vidas. Isto é, aquilo a que vulgarmente se chama karma ou destino e que teria a ver com o ciclo de intenções, acções e consequências que precisa ser quebrado para ultrapassar e resolver uma espécie de bloqueio encerrado… na roda das encarnações.

E a poesia parece funcionar, neste caso, como tentativa de purificação, de redenção e de sublimação dos desequilíbrios e das cargas negativas acumuladas nas diferentes vidas passadas. Obviamente, tudo isto só fará sentido para quem acredita na encarnação. Falo, entre outros, dos praticantes do hinduísmo, do budismo, ou das doutrinas místicas do Egipto antigo. O espiritismo, entretanto, entende que essa transmigração não pode ser aleatória, mas deve representar uma progressão.

Outra possibilidade, para quem não entende ou se distancia destas doutrinas, a decisão mais razoável, porque pragmática, é a do leitor fazer um pacto tácito e comunicativo com os poemas que esta obra nos proporciona e que oscilam entre a materialidade algumas vezes crua das sensações e a espiritualização das mesmas.

No poema a abrir, “Roda das Encarnações”, título homónimo da obra, os dados ficam lançados: Sou os olhos do Universo, a boca molhada dos oceanos, as mãos da terra, sou os dedos das florestas, o amor que brota do nada, sou a liberdade das palavras quando gritam e rasgam o mundo, sou o que sinto sem pudor, […] sou o cosmos vivendo na harmonia da roda das encarnações.

Surpreendemos, aqui, aquela que vai ser a nota dominante, contraditória por um lado, mas ao mesmo tempo conciliatória entre uma dimensão transcendente, cósmica (Sou os olhos do Universo/ sou o cosmos/ vivendo na harmonia da roda das encarnações) e uma dimensão sensualista, com um carácter transgressivo e lúbrico (sou o que sinto sem pudor). Neste particular, é como se assistíssemos a uma deriva pessoana de sentir tudo de todas as maneiras ou de então viver tudo de todos os lados, como se o sentir fosse, para todos os efeitos, uma espécie de centro existencial. Veja-se “Alma Inquieta”: fazendo calar o tropel sonoro da minha alma inquieta, sensorial, num e num poema como “O Teu nome é Paixão”, a sensação emerge como a vertigem de uma onda, em que a conexão com o outro que se deseja e com quem se estabelece um diálogo íntimo faz com que tudo tenha sentido na voz que entretanto se agiganta: sinto que toda eu sou um poema dos sentidos, exuberante, cheia de viço e força, como se o meu corpo fosse um tronco onde o látex rebenta em belas lágrimas de âmbar. sinto-me analfabeta do amor, face à grandeza do teu amor sim o teu amor!!!!…e que amor!!!….

Não admira, pois, que seja a sinestesia a figura retórica que sobressai em porções generosas no lirismo poético de SóniaSultuane. Exuberante rapsódia de sensações e emoções, a sinestesia acaba por instituir-se como reinvenção da própria sensação, seja ela táctil, visual, olfactiva ou mesmo sonora: Um poema de descontentamento que enrola os meus sentimentos num xaile negro e na voz desconhecida que canta a minha dor. Seria ilusório, no entanto, acreditar que a peregrinação poética e sensorial de que o leitor é testemunha e cúmplice, nesta obra, assenta em exercícios gratuitos de irracionalidade lírica. A comprová-lo estão, entre outras, as demonstrações reiteradas de uma consciência do próprio fazer poético, de que poesia, afinal, são palavras: “As palavras são a exterioridade que reveste o meu coração” (Palavras); “Caminho com meus pés sem medo das palavras” (Vocabulário); “Só tu conheces o texto onde me rescrevo” (Pontuação); “Por ti/dou todos os verbos autênticos que conheço” (Gramática). Será, porém, na espiritualização das sensações, no misticismo que atravessa grande parte dos poemas de Roda das Encarnações, onde uma espécie de aprofundamento e questionamento da existência individual, numa perspectiva atemporal, nos transporta para uma dimensão outra, diríamos mesmo inapreensível. Isto é, a mesma voz poética que, em algum momento, se assume como “uma vagabunda/no mundo dos sentimentos”, procura, agora, levar-nos mais longe.

Tal é o caso de uma viagem imaginária, difusa e onde o próprio limite é o Universo: nessa viagem de sonho sem norte nem sul procurando dentro de mim os desconhecidos oceanos que me purificarão, procurando dentro de mim a essência que mate a minha imensa sede de saber com a certeza de apenas servir a verdade do que sou nesta nova missão espiritual.

E a poesia vai-se derramando numa religiosidade sem religião, onde Deus, Natureza, Universo, Tempo, Lugar, Cosmos, karma se entrelaçam num círculo mais de busca de transcendência do que propriamente da sua afirmação ou realização. E na intensa e envolvente dicotomia vida-morte, emerge um sentido de mortalidade da qual se renasce quase que indefinidamente, numa aparente negação dessa mesma dualidade. E aí percebemos que, sair da roda das encarnações, quando se sai, mais do que redenção, significa sobretudo abraçar a eternidade, superação das prisões que o corpo, isto é, as sensações foram engendrando na travessia do tempo e da memória.

Prefácio à obra Roda das encarnações, 2016.

Nota do Editor: o autor deste texto excluiu desta lista a obra N’weti,
que é infanto-juvenil.


Roda das Encarnações
Mia Couto – Escritor

Um livro não se apresenta, tal como não se apresenta uma pessoa. O que vou aqui fazer é apenas partilhar convosco o modo como me aconteceu este Roda das Encarnações. O que mais me tocou neste livro foi um sentimento religioso que perpassa por todos os poemas e que se anuncia logo no título. O título fala de encarnações e o título podia ser uma mentira poética mas não é. Este livro trata desse círculo infinito de que faz parte a migração de corpos e almas e de mundos.

De um modo muito feliz o título reúne dois conceitos: o da roda e da encarnação. É uma falsa dualidade porque se trata de uma única entidade. Quando se fala em “roda”está-se a convocar um tempo circular que não deixa que os vivos se afastem dos mortos. Evoca-se um tempo que reunifica as pontas do passado e do futuro. Quando se fala em “roda” está a sugerir um jogo, uma dança, uma relação lúdica com o tempo que só acontece no tempo da infância. E a fotografia da capa é elucidativa: a poeta descalça-se à porta do poema, espaço místico e sagrado, para depois voltar a usar os sapatos quando eles tomaram vida e se encheram de alma. O que se anuncia logo de início, logo no primeiro poema dedicado ao seu filho. é uma espécie de rosário de encarnações. É curioso pensar como o termo “encarnação”é partilhado por um conjunto de discursos religiosos como o cristianismo, budismo, hinduísmo e espiritismo. No discurso cristão a palavra foi sugerida no Novo Testamento para designar a vinda de Cristo à terra. Cristo “encarnou” porque reconciliou em si mesmo a carne e o espírito divino. A encarnação opera um milagre fundamental: sem ter deixado de ser Deus, Deus se fez homem. Sendo carne e sendo mortal, Cristo fez-se alma imortal dos mortos e dos vivos, dos antepassados e dos vindouros.

Este livro é habitado por um sentimento religioso no sentido primordial da palavra “religião” que é aquilo que nos leva a nos religarmos a algo que é universal, que é perene e que é sagrado. Um sentimento que não é exactamente o de uma qualquer religião concreta mas de uma religiosidade que nos faz reconectar com o universo. E que nos faz descobrir o mundo como os olhos da infância. Há uma ferida original que é a existência individualizada, dispersa e fragmentada. Há um verso em que Sónia diz: “a minha alma está cheia de um pedaço de todos”.

Sucedeu algures no nosso tempo vivido, um rasgão que impede que cada um de nós não seja todos os outros. Há um nó que nos aprisiona numa única pessoa. Há uma cicatriz que nos condena a viver a nossa vida por pequenos pedaços e insuficientes passos. Esse rasgão precisa ser suturado. Quem faz essa costura é a poesia. É com essa agulha e com esse pano que Sónia vai alinhavando versos com a intenção de recuperar o sentido sagrado da palavra. Há um poema em que ela escreve: … caminho com as palavras impressas em meus pés. Isto é poesia pura. É como se um livro estivesse escrito na superfície da terra. E como se ao inverso foi a terra que lesse o poeta. Foi a poesia
que escrevesse o poeta.

É no discurso poético que Sónia Sultuane constrói um idioma universal e que nos reconduz a uma experiência de harmonia absoluta. Neste livro a palavra é revelada como um meio não apenas de chegar ao outro, mas de ser um outro. Essa palavra não é já uma coisa mas uma divindade. A essa divindade Sónia se dirige, numa espécie de confissão de uma menina pequena que procura adormecer: … “E é que como se me lesses, Um livro de contos pagão e panteísta, Fazendo calar o tropel sonoro da minha alma inquieta”. O assunto destes poemas é o mesmo de toda a poesia: a procura de um regresso a casa. Essa casa pode ser uma geografia (aqui se sugere com frequência a Índia). Mas essa casa nunca chega a ser um lugar. Essa casa pode ser uma vida anterior, pode ser a evocação de um espaço de afecto da família e da infância (os poemas que são dedicados são dedicados quase sempre a familiares, numa roda sultuanica, com excepção honrosa do meu falecido pai, o patrono desta casa). Essa casa não é um tempo ou um lugar: é uma viagem, uma travessia, é o amor que apaga fronteiras entre corpos e vidas. Neste livro partilhamos uma casa feita com palavras. Palavras de alguém
que não apenas escreve. Alguém que é a própria poesia.

Texto da Apresentação pública do livro Roda das Encarnações 2016

Roda das encarnações – Ilha de Moçambique

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