Exposições virtuais

Espero que esta exposição virtual seja uma mão que lhe toca. Este trabalho foi produzido em 2009, mas nunca tinha sido apresentado.Hoje mais do que nunca, torna-se tão actual, uma reflexão profunda, sobre a ausência do toque ou de uma simples mão.
 
Sónia Sultuane
11 de Maio de 2020

Das mãos á alma

Sónia Sultuane maravilha-nos com mais esta exposição virtual, e não resisti ao convite para escrever sobre este trabalho. As fotografias aqui apresentadas foram encontradas no silêncio da quarentena. Captadas por mim e dirigidas pela Sónia Sultuane. Este é o momento perfeito para repensar o seu processo criativo e redimensionar trabalhos antigos e novos conceitos. Faz alguns anos que passávamos horas a fio a conversar sobre os nossos trabalhos e iniciativas do coletivo MUVART.
Nessas sessões fui convidado a fotografar este trabalho. A Sónia estava eufórica com a ideia de criar um trabalho onde as mãos poderiam transmitir sentimentos.
Em vários aspectos, os nossos trabalhos têm pontos em comum, e processos criativos diferentes. Para nós a arte só faz sentido se colocar questionamentos. A arte deve questionar o ser humano.
O conjunto de fotografias sobre as mãos tem uma forte presença de expressão e de sentimento. Pouco se pode escrever o que realmente são estas fotos, pois já representam e comunicam pela força da imagem, e o texto pode cair no vazio de ser descritivo.
As mãos são parte importante do corpo humano.  Os cegos lêem com as mãos e os mudos têm as mãos como sua voz. O homem se integra no mundo que o rodeia também pelas funções desempenhadas pelas mãos. Delas melhor se pode desenvolver o trabalho, a sensibilidade e trato dos objectos, a mobilidade no mundo que vivemos e o exercício do tato, são funções que podem desempenhar e que proporcionam a oportunidade de crescimento. Nos dias actuais a leitura das mãos é em muitos casos utilizada para prevenir determinadas doenças, comportamentos e personalidades do indivíduo e prever o futuro.
Monólogo das Mãos, criação do jornalista e poeta brasileiro, Giuseppe Ghiaroni, Ganha outra dimensão e força na voz de Bibi Ferreira “Para que servem as mãos? As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever…
Na Bíblia há inúmeras passagens onde se referem as mãos. Evangelho de Lucas, cap.VI-10, Jesus cura um doente portador de uma mão ressequida, restituída sã como a outra. Em outra oportunidade, exortou um possível seguidor, dizendo-lhe: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus.” (Lc. 6:10). Pilatos lavou as mãos para tentar limpar a sua consciência.
As mãos, a par da execução das obras artísticas, podemos referenciar. Com as mãos, Miguel Ângelo pintou a Capela Sistina, e o detalhe da mão de Deus e de Adão. Na escultura moderna moçambicana as mãos são expressão do sentimento.  Na medicina são as mãos dos cirurgiões que fazem o mais delicado trabalho de salvar vidas. O que seria se não fossem as mãos das mães que cuidam delicadamente do bebé recém nascido? Em tudo na vida são exigidas mãos determinadas e seguras, mãos delicadas e precisas, mãos leves e sólidas. Mãos que fazem a diferença, no mundo. Obras literárias, inclusive as psicografadas, foram possíveis através de mãos.
Estas imagens devem a existência da poesia de Sónia Sultuane, onde traduz a espiritualidade, a sensibilidade, da escrita e para as artes. No livro Sonhos, Sónia Sultuane escreve o poema:


Voltar a Tocar-te,
será sentir-me viva, completa,
tornar a encontrar-me e a perder-me,
neste desejo que doi,
voltar a tocar-te será tocar-me profundamente,
perder-me e novamente encontrar-me.


No prefácio do Livro Sonhos, Eduardo White diz que a poesia tem uma estranha respiração humana como as mãos que aparecidas, se atravessam pelas paisagens que ela deixa a percorrer-nos por dentro.
Com as suas virtuosas mãos, Sónia Sultuane continuará a encantar pela transcendência de suas obras, captando energias, verdades, espiritualidade ao som da escrita e das artes visuais, o mais distante deste mundo sob forma de fotografia, poesia, pintura e escultura como nos tem sempre surpreendido.

Jorge Dias
Maputo, Maio de 2020

Fotográfo: Jorge Dias
Edição fotográfica: Ricardo Coelho
Curadoria: Sónia Sultuane

Os “ventos do Apocalipse” podem manter a arte em tempo de “emergência sanitária”

Leia abaixo um trecho sobre a exposição visual “Touch me”, escrito pela professora Sara Jona Laisse, e publicado no Jornal OPaís no dia 28 de Maio de 2020.

http://opais.sapo.mz/os-ventos-do-apocalipse-podem-manter-a-arte-em-tempo-de-emergencia-sanitaria