Exposição Individual “O Lugar das Ilhas”

O lugar das ilhas

A exposição “O Lugar das Ilhas” é o resultado da minha inspiração na arquitectura e no trabalho de arquitectos, interesso-me pelos materiais que usam, não por serem materiais nobres, sofisticados ou caros, mas pela sua diversidade, outros até bastante simples, a que recorrem como, por exemplo, os fragmentos de cerâmica, de vidro, de mármore, os mosaicos.

Tudo começou quando fiz a minha segunda exposição individual, inspirada no trabalho de Gaudí. Trabalhei com a forma circular e as cores do meu imaginário, a partir do trabalho desse arquitecto, principalmente na Casa Batlló (1904-1906) em Barcelona. Também nessa altura tentei trabalhar com mosaicos, mas não encontrei “a magia que procurava” e desisti. Criei então uma “espécie de mosaicos”, recorrendo à madeira prensada, de vários tamanhos, que fui sobrepondo e acabei por resolver assim a questão. 

Depois veio a exposição inspirada em Pancho Guedes. O meu interesse começou pelas formas geométricas e arquitectónicas de Pancho e não pelos materiais que usaria para as produzir ou que ele tinha utilizado. Como tinha tentado trabalhar com mosaicos, e tinha muitos guardados desde a exposição inspirada em Gaudí, resolvi experimentar e utilizá-los.  Aconteceu “a magia, o milagre”, descobri que podia criar uma paleta de cores extraordinária, formas geométricas espectaculares e que diversos e muitos caminhos se podiam abrir.

Influenciaram-me também as viagens, feitas ao longo dos últimos anos a alguns países como a Itália, Turquia, Espanha, Índia, Egipto, Portugal, onde a arquitectura é majestosa e grandiosa e onde o mosaico está muito presente: a Catedral de Florença, a Basílica de São Pedro no Vaticano, a Mesquita Azul em Istambul, a Catedral da Sagrada Família e o Parque Guell em Barcelona, o Taj Mahal em Agra, a Mesquita Muhammad Ali no Cairo, o Museu do Azulejo em Lisboa, e tantos outros lugares por onde passei. Foi assim que cheguei a um tempo guardado em mim de outros lugares, e um desses lugares foi a Ilha de Moçambique, onde estive tantas vezes na minha infância. As portas eram na minha fantasia de criança enormes portões e as janelas pequeninas guardavam tantos mistérios e segredos.

O que apresento nesta exposição faz parte do resgate desses lugares em mim, do lugar físico, dos lugares imaginários que habitam “essas ilhas”. Quase quarenta anos depois estive por duas vezes consecutivas na Ilha, percorri novamente alguns desses locais e resgatei memórias, talvez imaginárias, da infância.

Comecei por escolher como elemento principal para o meu trabalho a capulana. Por dois motivos, primeiro para transformar a capulana, de todos os dias, em algo mais do que um elemento decorativo, de moda, de culto, depois, para elevar a capulana a obra de arte, um pouco inspirada num pedaço de papel verde azulado que estava colado na porta principal da Mesquita antiga na Ilha de Moçambique (primeira Mesquita contruída em Moçambique). Foi esse pedaço de papel que me remeteu à capulana, e que produziu o clic, “criar portas e janelas em capulana”. Também queria trabalhar nas capulanas da Ilha, nas capulanas aí usadas, nas capulanas com formas geométricas também encontradas, aqui e ali, na arquitectura presente nesse espaço.

O uso do mosaico, definitivamente, tornou-se a assinatura dos meus trabalhos plásticos. Complementa a minha criação. Hoje entendo melhor esse elemento, posso criar trabalhos em 3D, posso sobrepô-los, alinhá-los ou desalinhá-los, procurar e obter algo novo e diferente.

Apresento e represento aqui tempos, lugares, sentimentos, memórias, formas de vida e tradições da ilha.

Sónia Sultuane

Imaginar a ilha de Moçambique

Curadoria: Alda Costa

O que leva Sónia Sultuane (n.1971) a interessar-se pelo trabalho dos arquitectos e pela arquitectura? Não tendo formação em arquitectura, o seu interesse faz-me lembrar a conversa de Le Corbusier (1887-1965) com os estudantes das escolas de arquitectura. Acredito que o seu interesse esteja associado à possibilidade da invenção, “a razão e a poesia que coexistem nas coisas da construção”. A vontade de construir “com materiais simples ou até pobres…casas que fossem palácios”. Como escrevi já, o seu amor pela liberdade, a vontade de criar desde muito pequena, das brincadeiras com botões ao tapete de papaias, o gosto pelas palavras, desde cedo antídoto para o sofrimento, o amadurecimento precoce, o espírito lutador, a vontade e a coragem de ser ela própria fizeram-na abraçar outras artes, procurar novas ‘ferramentas’ para comunicar. Assumindo-se autodidacta, tem continuado à procura de si própria e a comentar, com recurso a diferentes linguagens, o mundo que a rodeia. Sociedades e culturas contemporâneas em transformação servem-lhe de inspiração.  As ideias vão surgindo, as viagens também, é uma viajante apaixonada, e os lugares que visita alimentam-nas, os materiais, “objectos poéticos” que pensa usar para dar corpo às ideias, começam a ser reunidos aguardando o momento certo, o “click” como lhe chama, de as materializar e de as mostrar. Acredito que também lhe interessa o passado, o passado que foi mestre e conselheiro permanente de Le Corbusier, o passado que interessou e com quem dialogou Pancho Guedes (1925-2015), o arquitecto-artista, autor de vastíssima e diversa obra, grande parte realizada em Moçambique, a partir da década de 50 do século XX e que Sónia Sultuane tanto admira. Como diz Miguel Santiago, a obra de Pancho é marcada pela “predisposição  para ser contagiado, as reminiscências do passado, a mistura de influências locais e internacionais”. Como Antoni Gaudí (1852-1926), também este arquitecto acreditou e desenvolveu a ideia de que um “edifício pode ser um mundo em si mesmo” e a sua influência está muito presente no que projectou e/ou construiu: nas formas, nos elementos e nos materiais utlizados. São alguns desses materiais usados na arquitectura e dela fazendo parte integrante, os fragmentos de cerâmica, os fragmentos irregulares de pedra, os seixos do rio usados no chão e nas paredes que mais atraem Sónia Sultuane. O mosaico, usado como um elemento decorativo desde há séculos, em particular o mosaico islâmico introduzido em Espanha pelos Mouros, pelo menos desde o século VIII, inspirou Gaudí que o utilizou profusamente em muitas das suas obras e lhe acrescentou diversos outros materiais. O mosaico tornou-se popular em outras geografias e continua a suscitar, também entre nós, o interesse de artistas e arquitectos, presente em murais e no exterior de edifícios, do passado e do presente, das nossas cidades. Também o interesse de Sónia Sultuane.

A exposição O Lugar das Ilhas, surgiu a partir das suas visitas recentes à Ilha de Moçambique. Um lugar da infância revisitado, associado a memórias, talvez adormecidas, talvez apenas à espera de serem activadas, diferente dos lugares das suas próprias experiências de viagem, um lugar que ganhou contornos imaginários e que foi transformado em realidade a partir do que viu e sentiu. Não utilizou, desta vez, a escultura, a fotografia ou o aglomerado de madeira. Recorreu à capulana, em si mesma um objecto real, quase um readymade, traje de todos os dias e também de cerimónias, de que se apropriou, e em cuja superfície integrou, colando, um sem número de elementos e pequenos mosaicos para criar outras formas de representação desse lugar revisitado. A partir do objecto capulana, apropriado e recriado, refere-se, nas diferentes séries apresentadas, ao passado e à arquitectura da Ilha, às portas e janelas (nem os arquitectos foram capazes de lhes resistir) simbólicas que se abrem para criar novas relações entre nós, os sujeitos, e os espaços, para falar das diferentes culturas presentes, contar histórias, estimular a nossa imaginação, para reflectir e questionar o que conhecemos e o que nos rodeia. Para nos convidar a dizer “aquilo que se vê” e a ver “aquilo que se vê”. E é isso que importa, e a delicadeza do labor, não a simplicidade dos materiais usados ou o suporte encontrado para chegar à linguagem escolhida para comunicar connosco. Tão pouco a originalidade, autenticidade ou autoria, assuntos desde há muito desafiados por quem se interroga e questiona, no seu trabalho, a natureza e a própria definição de arte.

#CCBMEmCasa#usoobrigatoriodemascara#SóniaSultuaneFonte: CCBM – Centro Cultural Brasil Moçambique

Os nossos lugares e as suas ilhas

Jorge Dias, diretor do CCBM

É com reconhecimento, respeito e valor que olho para a obra de Sónia Sultuane. O Centro Cultural Brasil-Moçambique não podia passar a margem desta exposição. Do mesmo modo que eu caminhei pelas ruas, ruínas, portas, janelas, casas, associadas as sensações apreendidas pela luz, cheiro e sabores da Ilha, na companhia de Sónia Sultuane em 2018. Reencontrei no meu imaginário quando tive contacto com os materiais usados para fazer estas obras como a Capulana, os azulejos, as especiarias e diversas formas que constroem labirintos do meu eu, sugando-me e atraindo-me esta exposição. Não poderia ser diferente. Encontro perfeito da força da arte, da poesia e da história.

As capulanas detentoras de padrões únicos, estimulam o nosso imaginário, formam redes e ninhos-emaranhados dos quais aprisiono o meu olhar. Os azulejos que formam as diferentes dimensões, constroem relações que nos dizem uma história, as mesmas histórias várias vezes, num processo de repetição e de reprodução. É a paixão pelas formas que os arquitetos proporcionam-lhe com as suas criações. Primeiro foi  Antoni Gaudí (1852-1926) que inspirou “Códigos de Gaudi” em 2013. Seguiu-se Pancho Guedes (1925-2015) e, que resultou em “Pancho: Outras Formas e Olhares”, em 2018 e 2019. Agora, a Ilha de Moçambique. Ilha de todos nós. Inspirou a “O Lugar das Ilhas”. Um dos maiores responsáveis desta Exposição foi sem dúvida um pedaço de papel azul na porta principal da Mesquita antiga na Ilha de Moçambique. Mas a experiência de um todo foi inspiradora para esta exposição. O passado na infância, as visitas atuais, a fotografia dos momentos e das sensações, a poesia e sem dúvida a magia da ilha em proporcionar em nós experiências únicas.

O processo de criação em jogo é a construção de um lugar onde o múltiplo, o reproduzido, o vulgar se torna único. Do poder da obra. Do poder do artista. Do poder do material pobre ou não. Os objectos e materiais que integram a trama de Sónia Sultuane são de um quotidiano banal, e que aqui agrupados, expostos em conjunto, se transformam em nobres, em relíquias guardadas em cada um de nós. As Capulanas que parecem simples tecidos são objectos que dialogam diferentes idiomas e dão forma a objectos como portas e janelas. Os azulejos e especiarias proporcionam nuances de volume e ideia de movimentos e escala do tempo. Como diria a Éden Martin. Estas obras comunicam a passagem. Passagem de uma figura para outra, passagem de uma identidade para outra, passagem de um tempo para outro. Passagem do múltiplo para o único e do igual para a diferença.

O “Lugar das Ilhas” é de onde me encontro, onde me aprisiono, onde as redes de mim fazem as prisões de Sónia Sultuane. Por onde o horizonte leva o olhar a caminho da apropriação e construção para que se alcance o Belo. Um processo inicial que me permite ver as diferenças nos padrões de formas e cores. Nas densidades e pureza dos materiais que insistem em ser objecto.

Entrevista no Programa Artes e Letras da STV

Notícia publicada no Jornal Notícias

https://www.jornalnoticias.co.mz/index.php/recreio/102574-exposicao-de-sonia-sultuane-a-ilha-como-berco-de-historias-para-arte

Cerimonia da Inauguração da Exposição